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Duolingo, tecnologias e pessoas

Atualizado: 30 de set. de 2024


[texto publicado originalmente em 29 de setembro de 2023]


Ciao, cara persona che mi accompagna? Come stai?


Eu estou muito bem e quero compartilhar uma coisa interessante e bastante íntima. Você sabia que eu estou estudando francês?


Pois é... Eu e meu noivo decidimos fazer isso juntos há alguns meses, começamos de verdade faz 30 dias na data de hoje e eu acho isso bem fofinho. Não só por fazer junto dele, mas por me colocar de novo nesse lugar de aprendizagem básica em um outro idioma.


Tenho aprendido sons, pronúncias, vocabulário básico, frases no período simples e tudo o que um bom mês de estudos pode nos proporcionar. E estou gostando. É bom o gostinho de novidade de novo, né?


E hoje também faz 30 dias que faço Duolingo em francês. Não sei se você tem uma opinião formada sobre o Duolingo ou aplicativos semelhantes. Se você tiver, sinta-se à vontade para compartilhar comigo, porque eu tenho, mas é um pouco polêmica e paradoxal. Pelo menos na minha vida, muitas coisas são assim polêmicas, paradoxais e seguem por aqui.


O Duolingo é uma das maiores plataformas de ensino e aprendizagem de idiomas hoje e a grande missão deles enquanto empresa é ser universalmente acessível. No site oficial, podemos ver que a preocupação é real e o exemplo é que o Duo é usado por estrelas de Hollywood e por estudantes de escolas públicas de países em desenvolvimento ao mesmo tempo. Lá também temos informações sobre ser personalizável, ter embasamento científico e ensinar o que é útil em uma língua. Parece ótimo, né?


Por um lado, eu acho e adoro. Fiz espanhol durante 367 dias seguidos lá e foi um período bom que, quando lembro, é com carinho. Eles também são bastante honestos ao dizer que é possível chegar no máximo ao B2. O que, para um aplicativo gratuito, é uma promessa e tanto. E, se você já passou por um aprendizado de língua, sabe bem o tempo que leva até um intermediário bem consolidado.

Mas onde está o paradoxo? Bem, é um aplicativo que ensina utilidade na língua através da repetição, da gamificação e incentiva uma competitividade entre aprendizes. Eu mesma faço diariamente para me manter bem pontuada em um ranking com pessoas que eu não conheço e provavelmente não vou conhecer.


Afinal, qual é o sentido de aprender competindo e repetindo dia sim dia também? Na minha rotina, é acessível, fácil. É o tempo de ferver uma água antes de passar o café, esperar um ônibus no ponto, um comercial durante os programas de tv... Aquelas pausas pequenininhas que mal percebo que tenho, são preenchidas por um contato breve, leve, constante e tecnológico.

E nunca havia pensado nisso até a última semana, quando chegou um espertinho na DM pedindo informações sobre o curso Autonomia em italiano, meu curso híbrido, e concluindo que, para isso não precisava pagar, porque já fazia Duolingo de graça. Muitos disseram coisas semelhantes, na verdade, mas de maneira bem mais educada.


Mas será mesmo que o Duolingo é capaz de oferecer um aprendizado ativo e constante com o método que existe lá? Será mesmo que um aplicativo com metodologia baseada na repetição lúdica de frases com pouco contexto substituem um estudo ativo e dialógico de pessoa para pessoa?


Eu particularmente acho importante conviver com a língua e, se repetir no Duolingo é sua maneira, como é a minha, ótimo. Mas a convivência pode vir de uma música que você ouve e presta atenção, uma receita que você lê e tenta fazer, uma notícia que você lê ou literalmente qualquer coisa que cabe no tempo que você escolhe dedicar a isso.


A tecnologia é nossa amiga, os aplicativos e ferramentas também, mas elas só podem te ajudar se o processo de aprendizagem for além do aplicativo, das estrelinhas conquistadas, do ranking mais alto, do foguinho que acende a cada dia de sequência. Esses dados brilhantes na tela são detalhes de um processo de aprendizagem que não precisa ser útil, aplicável, monetizável e caber em pausas pequenininhas que a gente mal percebe que tem.


Língua e conhecimento não é algo que nos enriquece com dinheiro necessariamente ou com o vislumbre de uma transformação financeira. Eu, pelo menos, não ensino e não aprendo dessa perspectiva. Ensino e aprendo com o desejo de enriquecer cultural e ideologicamente as pessoas através do senso crítico, da cultura, da interação entre indivíduos e, cara pessoa que me acompanha, não acho que um bom machine learning de educação vai substituir isso.


E, como toda tecnologia inovadora, não é grátis. Nós pagamos a maior parte do que fazemos com o que há de mais precioso: nossa atenção e nosso tempo. O Duolingo exige nossa atenção e nosso tempo, ainda que de maneira breve e lúdica. Esse último é, como diz Antonio Candido, o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando.


E o paradoxo é que eu gosto de dedicar um pouco do meu com um estudo de 10 minutos diários em um aplicativo cujo avatar é uma coruja poliglota, mas não como um fim em si mesmo. Hoje, faço isso por dividir esse momento com alguém que amo, por aprender para além da tela algo que vai construir um conhecimento com pessoas, espaços, sons e ideias que vão ocupar outros espaços do tecido da minha vida. E, voltando ao francês, qual é a utilidade dele hoje na minha vida? Nenhuma. Me comunicar na lua de mel dos meus sonhos, talvez. Mas o desejo é do processo, bem vivido dia a dia da maneira que posso.


E você? Gosta do Duolingo? O que acha sobre isso?

 
 
 

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